Solos Culturais

Solos Culturais

Guia Cultural de Favelas

jovens de favelas cultivando saberes e transformando a cidade.

12/03/2014 | Solos Culturais / Todos os territórios

Solos Maré | Diário de Sentidos

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Por Andressa Lacerda

O projeto Solos Culturais e seus maravilhosos desdobramentos, principalmente a ação Solos Maré, realizado também pelo Observatório de Favelas, desta feita em parceria com o Instituto Avon, foi, sem dúvida, a experiência de processo coletivo mais importante que pude vivenciar.

No ano de 2011 fui aluna de Caio Gonçalves Dias – na época, doutorando em Antropologia pelo Museu Nacional – no curso de Estudos de Mídia da UFF. A disciplina era Cultura Brasileira. Caio falava sobre o que eu mais gostava de ouvir e logo percebemos afinidades. Ele integrava a equipe do Observatório de Favelas e convidou para participar de um novo projeto, Solos Culturais, que iria formar 100 jovens em produção e pesquisa cultural.

Em janeiro de 2012 iniciei minha participação no projeto como estagiária, com uma equipe pequena, mas que queria e sabia abraçar a cidade. Éramos quatro. Logo esse número foi aumentando. Os processos de produção do projeto começaram e de repente me vi completamente envolvida com essa organização da sociedade civil e 100 jovens da minha idade e da minha cidade, com interesses em comum, dentro de nossa alteridade, diversidade e multiplicidade.

Por uma cidade mais democrática em relação ao reconhecimento e ocupação de práticas culturais essenciais para a cidade emergir, novas ideias, parcerias, interesses, ações e sonhos foram surgindo, ganhando forma e materialidade. Com orgulho participo desse movimento desde o seu início, o que se transformou, pra mim, um projeto de vida.

Além da formação em produção e pesquisa cultural, já estava prevista uma intervenção na cidade como conclusão da vivência, que foi espécie de materialização de nosso processo coletivo. O sucesso começava mesmo pelo começo, desde nosso primeiro encontro enquanto grupo. O que quero dizer é que o encontro e formação do grupo, que durante o andamento dos encontros veio a se chamar MARETOWN, já foi um grande e poderoso start.

O coletivo MARETOWN representa um manifesto social, político e cultural. Nós, jovens de origem popular, nos unimos a fim de entrar na luta pela ocupação do espaço que é nosso por direito, pela afirmação de nossas identidades diversas, pelo grito de nossas expressões pessoais e culturais, pela explanação de nossos desejos, pela nossa inserção na dinâmica visível na cidade.

Nesses seis meses de conviver, o MARETOWN conseguiu exprimir nossa capacidade de trabalhar em conjunto, de entender nosso meio e o alheio, de nos posicionarmos como agentes culturais ativos na cidade do Rio. Soltamos o grito. Queremos aqui e ali. Queremos assim e assado. “Quando mete o pé na porta é com força”.

Demonstrar e ocupar o que é nosso nos coloca de frente para nossos prazeres e satisfações, mas também para nossos conflitos e medos. É a pressão da grande cidade tão dividida em territórios, mas ao mesmo tempo cada vez mais desterritorializada e translocalizada, nos convidando a entrar na disputa pela apropriação e afirmação enquanto juventude carioca idealizadora e participativa da dinâmica de nossa cidade.

Topamos juntos. Seguimos juntos. E não foram apenas processos teóricos e técnicas práticas que aprendemos com os encontros matinais, com as oficinas e conversas. Todos os dias que estivemos juntos, a base de nossos processos foi a troca de experiências, de pensamentos e de desejos e, principalmente, as descobertas de nossos hibridismos e os dos outros.

Exploramos diversos olhares sobre nosso lugar de convivência, trabalho, lazer, lar (a favela da Maré), e ampliamos nossa visão sobre o território e sobre nós, que passamos e estamos em processo nele e com ele. Desconstruímos o conceito de cultura endossado pelo senso comum, que mais exclui do que inclui as diversas práticas culturais existentes. Nos colocamos como protagonistas culturais dentro dessa cidade mostrando que, nessa disputa, somos enriquecedores e intransponíveis. Contribuímos com nossa estética e provamos nossa autonomia.

E foi a partir do reconhecimento de que as trocas somam é que fizemos de tudo um suporte para nosso crescimento: trocamos nossas sensibilidades e olhar pelo outro, entendemos que somos capazes de fazer nossa visão de mundo ir sempre além do que até nós mesmo acreditamos, e aprendemos que vale muito fazer do processo o mais prazeroso possível, com legados e marcas positivas no corpo de nosso espaço, em nosso tempo.

Assim acontecemos. No final dos seis meses previstos, fizemos uma intervenção artística e política, uma ocupação inclusiva, reconhecida no território. Mas não concluímos, não concluiremos. Porque nos reinventamos, re-existimos. Somos top, capa de revista! Não saímos ilesos. Nem saímos. Entramos uns nas vidas dos outros e seguimos juntos, na mais bela verdadeira parceria. E o MARETOWN é o nosso investimento, nosso legado, nossa contribuição à essa geração de seres-no-mundo, aqui e agora.

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