Solos Culturais

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Guia Cultural de Favelas

jovens de favelas cultivando saberes e transformando a cidade.

01/09/2012 | Notícias / Todos os territórios

Quem diz o que é cultura?

Surfe na Rocinha Surfe na Rocinha

Projeto Solos Culturais fará cinco intervenções em diferentes territórios, mostrando o que a favela tem

O que é cultura? Essa pergunta tem feito a cabeça de cerca de 100 jovens produtores culturais, de cinco favelas do Rio de Janeiro. Com a interrogação eles questionam a definição de “alta” e “baixa” cultura, quem nomeia o que é cultura e porque estas pessoas tem tal privilégio. Há perguntas, mas também busca por respostas e muita ação.

Estes jovens fazem parte do projeto Solos Culturais, iniciativa do Observatório de Favelas em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro e patrocínio da Petrobras. Os solistas, como são chamados, farão intervenções nos cinco territórios onde já atuam — Manguinhos, Penha, Complexo do Alemão, Cidade de Deus e Rocinha –, provando que as favelas tem muito o que mostrar quando o assunto é cultura.

O nome “Solos Culturais” vem da ideia de que as favelas são solos férteis de onde brotam diferentes práticas culturais. Solo remete a chão e cultivo, mas também àquelas ações individuais dentro de um coletivo, como o solo de um músico em uma orquestra.

As atividades — resultantes da formação iniciada em março — começam no dia 15 de agosto no Complexo do Alemão, com exibição de filmes e mutirão de grafite. Esta ação será uma prévia do festival Curto Circuitos, que vai acontecer no dia 25 do mesmo mês, reunindo talentos locais, em cerca de 15 apresentações, em quatro diferentes pontos do conjunto de favelas: no Largo do Bulufa, Praça do Conhecimento, Largo dos Mineiros e Praça do Sagaz.

Solos Culturais

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“Nossa proposta é fazer um apanhado das ideias do que os moradores entendem por cultura e depois disso provocá-los a pensar como este conceito, que é mutável, também pode se referir às suas práticas culturais cotidianas. O festival Curto Circuitos difere de outras ações por essa coisa itinerante, mostrando a diversidade, legitimando e dando visibilidade à cultura local”, avalia Kelly Sun, 22, solista do Alemão.

Na Cidade de Deus, os participantes do Solos Culturais criaram um grupo chamado Coletivo de Ações Favelísticas (CAF), cuja primeira intervenção acontecerá em dois fins de semana de atividades culturais, envolvendo apropriação do espaço público, arte e memória.

Serão quatro ações no total. A primeira vai acontecer na sexta-feira (17), às 17h, num lugar da favela conhecido como a Esquina de Londres. Lá os solistas vão promover um típico chá londrino, convidando os moradores para um momento de conversas sobre o cotidiano e criando a oportunidade para o registro de suas memórias.

No fim de semana seguinte, a atração é o “Favela em Cena”, cineclube e videodebate na rua. No sábado, 1º de setembro, haverá um torneio com brincadeiras que fazem parte da memória dos moradores da Cidade de Deus. O encerramento, no dia 7, é marcado por uma grande festa, o “Made in laje”, que reunirá moradores, artistas e produtores culturais locais, para fortalecer ainda mais a rede de produção cultural local. O encontro será num churrasco num dos lugares de maior importância simbólica na tradição cultural das favelas cariocas: a laje.

“Estas ações tem o objetivo de valorizar e difundir costumes favelísticos e assim estimular o orgulho, autoestima e pertencimento entre os moradores da Cidade de Deus. O Rio de Janeiro é lindo sim, mas é lindo como um todo, tendo um contraste. Olhar o Rio do alto de uma favela é algo singular”, diz Jefferson Maia, 22, membro do CAF.

Na Rocinha, surfe é cultura. Lá os solistas farão uma exposição chamada “Rocinha, eu surfo”, para mostrar que, além de esporte, o surfe tem relação com uma série de práticas culturais da favela, que marcam e dão significado especial ao território. A mostra será descentralizada e acontecerá na passarela que liga a Rocinha a São Conrado, com fotos expostas em pranchas de surf; na Rua 1, onde será montada uma instalação; no Largo do Boiadeiro, com projeções de vídeos; e na Biblioteca Parque, onde haverá uma exposição fixa. As ações duram do dia 28 de agosto a 8 de setembro.

Na Rocinha, surfe é cultura.

Na Rocinha, surfe é cultura.

Em Manguinhos, a proposta dos jovens é estimular os moradores a transformar uma grande área abandonada, atualmente cercada por lixo, em um espaço de convivência, por meio de práticas culturais já existentes no território. O “Novo Foco”, nome da intervenção, acontecerá nos dias 18 e 25 de agosto e 1º e 8 de setembro, de 15h as 19h, entre os campos do Society e da Koreia. Neste período de atividades, haverá roda de capoeira, oficinas de pipa, grafite e roda aberta de pagode.

Na Penha, a principal ação é a abertura da exposição fotográfica “Penha in memorian: Entre Cores e Luz”, que vai mostrar as várias práticas e manifestações culturais do lugar ao longo da história. A ideia nasceu da percepção dos solistas da Penha de que era preciso recuperar outras memórias do local, que não passassem apenas pelos recentes episódios de violência. Neste processo, os jovens pesquisaram a história dos moradores e do bairro, tudo contado por imagens. O resultado deste trabalho poderá ser conferido na abertura da exposição, no domingo (26), a partir das 13h, na Arena Carioca Dicró.

Pesquisa e plataforma de hábitos culturais nos territórios

O Solos Culturais também formará os 100 jovens em pesquisa social. No curso, os participantes aprenderão a mapear os hábitos e práticas culturais dos moradores das cinco favelas. Com base nestas informações será criada uma Plataforma de Direitos Culturais no Território (PDCT), disponibilizada na Internet. A plataforma tem por objetivo orientar a formulação de ações em cultura, por agentes públicos e privados, nas favelas.

O que é cultura?

O que é cultura?

“Uma coisa que temos que atentar de início é que definir o que é cultura é uma questão política muito importante. Quando uma Secretaria, um Ministério da Cultura ou mesmo organizações da sociedade civil que atuam nesse campo, produzem escolhas de áreas de atuação, na verdade eles estão trabalhando para a definição de um conceito de cultura”, ressalta o antropólogo Caio Gonçalves, coordenador do projeto.

Solos Culturais

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Caio destaca ainda que o Solos é uma experiência que vem fortalecer a relação entre a produção conceitual e a atuação em campo. Ele explica que estes “universos” não devem ser pensados em separado. “Parece que são coisas apartadas, mas não tem como separar a reflexão do trabalho que desenvolvemos com os jovens. O que a gente procura trabalhar com os solistas é exatamente tentar mostrar que essa definição do que é cultura — e o próprio trabalho no plano conceitual — é uma coisa que pode ser feita por todo mundo”.

O Solos Culturais pretende deixar uma metodologia de mobilização social que visa produzir conhecimento e experiência nas favelas. Os solistas que vão continuar inventando e inovando, planejam ainda intervenções dos cinco territórios para a cidade até novembro deste ano.

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