Solos Culturais

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Guia Cultural de Favelas

jovens de favelas cultivando saberes e transformando a cidade.

19/06/2014 | Solos Culturais / Todos os territórios

Favela e linguagem: brecha, luta, discurso e potência

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Por Andressa Lacerda

O Guia Cultural de Favelas é, sem dúvida, referência na luta da cultura “popular ocidental moderna”, se é que podemos usar esses termos, por espaço, reconhecimento e visibilidade na construção de uma cidade mais democrática (perante ao público e perante as políticas públicas). Muitas vezes, a cultura das periferias encontrou-se diante de impossibilidades históricas de se fazer ouvir legitimamente. Isso se deve não só pelos preceitos dos significados de cultura para a classe hegemônica, mas também por ser constantemente esmagada pelo peso das cobranças, num sentido iluminista, de uma complexidade e de segmentos estéticos já socialmente e politicamente reconhecidos por essa classe e pelo poder público, que ainda não alcançou a sagacidade de catalisar e impulsionar, efetivamente, a virtude e a capacidade de transformação e ampliação de mundo que têm tais práticas culturais “populares”, de periferias, de favelas.

Nesse jogo de poder desigual, o Guia faz uso de táticas possíveis, desafiando a contenção da exposição dessas práticas por vezes oprimidas, visto que não são visadas e contempladas pelos guias culturais oficiais da cidade, por exemplo. Nas brechas desse sistema oficial, essa ferramenta costura negociações. Usando da tecnologia e novas mídias, preserva espaços de socialização, fazendo perpetuar códigos de valores, dando visibilidade aos poderes criativos, mesmo que muitas vezes tenha tido essas forças desprezadas e/ou tidas como exóticas, inocentes, toleradas e abafadas por meios classificatórios que não aceitam a diversidade. Expondo as experiências múltiplas, permite uma incorporação do discurso e das estratégias dessas práticas/saberes, que as classes do poder tendem a descartar.

A potência cultural do criar pode se transformar em poder político de selecionar, de resistir, de incluir, também de excluir, de marcar território, delimitar pertencimento, subjugar, enfrentar, empoderar sujeitos potencialmente criativos mas colocados a margem, excluídos, invisíveis, via os mais diversos sistemas, de vivenciar sua subjetividade plenamente. Utilizando a linguagem, o Guia revela lugares de subjetivação,de vivência material da cultura, de experiência concreta de cotidiano, possibilidades de resistir, de fazer escolhas, de delimitar quem pode e quem não pode entrar no universo cultural partilhado. Não só é fruto e potência criativa, mas revela, também, poder de operar o discurso e definir o sistema de representações que permitirá eleger quem está apto ou não a partilhar desse discurso. Afinal, todo mapa tem um discurso.

 

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