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19/02/2014 | Solos Culturais / Todos os territórios

Carolina de Jesus e seu Diário de Despejo

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Por Nalui Mahin

Em 2014 comemoramos o ano que seria o centenário da autora Carolina Maria de Jesus, uma autora que atualmente é pouco conhecida no Brasil, mas que na década de 1960 teve vendas equiparadas as de Jorge Amado. Após seu estrondoso sucesso, esse nome tão simbólico foi gradualmente apagado, não só da memória da população brasileira, mas também tem sido invisibilizado nas universidades brasileiras e entre os grandes nomes da literatura nacional. Isso não ocorre pela qualidade de seus escritos, mas sim pelo que está presente neles.

Carolina era uma catadora de papel, vivia em São Paulo, na favela do Canindé, e sustentava seus três filhos com a venda de latas e papéis que catava na rua. Sua outra atividade era relatar, em um diário, suas críticas políticas e fatos do seu cotidiano de mulher negra, mãe solteira, favelada, catadora de papel. Muitos de seus vizinhos se sentiam incomodados com o tempo que ela passava escrevendo. Em alguns momentos, Carolina dizia a eles que se fosse importunada, escreveria sobre eles em seu diário.

No início da década de 1950, um jornalista foi realizar uma reportagem à favela do Canindé e ouviu comentários sobre Carolina e seu diário. Algum tempo depois ele conseguiu que os escritos de Carolina fossem publicados. O diário ganhou o título de Quarto de Despejo. O livro foi traduzido para 13 idiomas e atualmente, Carolina de Jesus está entre as autoras brasileiras que tiveram maior vendagem no exterior.

Em Quarto de Despejo, Carolina narra seu cotidiano em primeira pessoa, quebrando o ciclo de silenciamento e invisibilidade que é comum, quando alguém ou alguma população tem sua história contada por pessoas que, na maior parte das vezes, não vivenciam aquela experiência. O cotidiano relatado por ela ainda está presente em favelas de todo o Brasil. Se faz necessário lembrar seu nome para que sirva de incentivo a outras práticas semelhantes, que façam uso da comunicação como munição no combate por uma sociedade menos desigual.

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